quarta-feira, 29 de julho de 2009

Sonetos em P

Pela vereda

Pela vereda caminha sozinha
O corpo a coberto só de um véu
A alma despida da fé que tinha
Saudosa, rumo a um ponto lá no céu

Caminhará até ao infinito
O firmamento acolherá seu grito
De uma vida incansável a lutar
Até de dor falecer o luar

Alheia ao ruído da multidão
Na travessia a noite, a escuridão
São a rota p'ra melhor se encontrar

Que o amor, apoteose do sentir
Tem que ser novo céu, novo porvir
E não dor mas exultação de amar

Nita Ferreira


Pecado meus

Pecado meus e… a chuva lá fora
E no meu peito com intensidade
Chuva e pecados meus em cada hora
Vivida com ardor e ingenuidade

Pecados são gotas que na vidraça
Da alma embaciam céu e mar
Numa continuidade que não passa
Além do existir e do sonhar

Mas só de sol e luz eu tenho pressa
Que vão passando os actos desta peça
Da vida e os pecados são albardas

Jogá-los vou no chão sem compostura
Para sorver da vida a doçura
Sem actos e sem cenas adiadas

Nita Ferreira


Páscoa, tempo de renascer

Nublou-se de cinzento o céu azul
Na quinta e sexta-feira da paixão
Eram roxas as dores daquele calvário
Mas supremo na alma o seu perdão

Roxas também as feridas do amor
E as cicatrizes da dor no coração
Se Tu Jesus na cruz morreste em dor
Porque lamento eu desilusão?

Não quero ao mundo mostrar tristeza
Se com actos hediondos me alcança
Páscoa é vida e sorriso a crescer

Nos céus inspiro do azul beleza
Seguro a mão gentil de uma criança
E ambas somos esperança a renascer

Nita Ferreira

Palidez

No céu vai empalidecendo a lua
E gotinhas prateando a paisagem
É o luar que descendo, flutua
E vai dissipar-se entre a folhagem

Recorda uma promessa e uma jura
Entre a Princesa Lua e o Outono
De ambos em doação sincera e pura
Se entregarem de almas ao abandono

Mas talvez o luar perdesse o norte
E por becos se rendesse à má sorte
De fraudulentos pontos cardeais

Nas noites frias e desencantadas
Nas caravelas sem luz, afundadas
No engano brilhante dos cristais

Nita Ferreira


Palavras emudecidas

Sinto as palavras emudecidas
Que não vêm fluentes aos meus dedos
Escondidas de mim, entristecidas
Não querendo escutar os meus segredos

Tanto eu queria a elas confiar
O enlevo que a minha alma traz
Oh palavras, pureza de encantar
Não tenho certeza de ser capaz

Pela estrada de ventos e penedos
Domadas por fantasmas e por medos
E em nós que apertam a garganta

A voz rouca de revolta em mil gritos
De dor se rabisca nos meus escritos
Enquanto o meu sentir se agiganta

Nita Ferreira









Puto

Um olhar vazio, baço e tão só
Habitado de tristeza calada
Atirado à rua sem qualquer dó
Vive de esperança desventurada

Ruas engalanadas de Natal
Tants luxos, andanças apressadas
E um puto sem carinho maternal
Vagueia entre o luar e o vão da escada

Se um Menino há milénios nascido
Bafejado por ternos animais
Teve infindo amor de Pai e Mãe

Porque erra então, desprotegido
Um puto de ansiedades iguais
Sem amor e aconchego de ninguém?

Nita Ferreira

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