sábado, 23 de maio de 2009

Sonetos em V

Velejando

De mil ondas sem rédea qual corcel
De um mar no meu peito galopante
Transparentes as velas e o batel
P'las marés vai cansado e ofegante

Dolorosas vagas aprisionadas
Ensurdecem meu canto sussurrante
Não se espelham as luas encantadas
No minguado regato refrescante

Oh pantanosas águas de cansaços
Que desviam e atropelam passos
Transmutados já vão os meus desejos

Na insalubre dor não sei se vivo
Pois não oiço o meu riso efusivo
Morrem ocos na boca os meus beijos

Nita Ferreira










Versos de vontade

Meus versos quais lampejos de vigor
Levam um estandarte à dianteira
Esta minha vontade com ardor
Que faz da noite manhã soalheira

Meus versos são da vontade o rascunho
Só rascunho que a vontade é maior
E rabisca esta pena que eu empunho
Essa força, impetuoso furor

Sou vontade e de vontade me faço
Se acaso faleço logo renasço
Rumo sempre mais além o meu sonhar

Que minh'alma caminha sempre eivada
Na vontade, força nunca adiada
P´lo azul estrelado é meu navegar

Nita Ferreira










Vidas

Andam dores perdidas pelo olhar
Em penumbras densas, amontoadas
Sobre vãs esperanças a brilhar
No baldio de vidas soluçadas

E ondas insanas a navegar
Pelas feridas não cicatrizadas
Doem corpos tatuado de mar
Em anseios de noites estreladas

E o céu prateado de luar
Só se espelha na imensidão do mar
Nas suas águas claras, não lamacentas

O sol mais a lua abrem os braços
Enlevados em beijos e abraços
Mas não impedem as nuvens cinzentas

Nita Ferreira










Voz no vento

Há uma voz forte que a alma habita
Que atravessa o céu, o deserto, o mar
Uma voz sem voz que no vento grita
Eternamente seu brado sem calar

Traz-me o som daqueles que ficaram
Perdidos lá na terra de ninguém
Os murmúrios daqueles que tombaram
Sem dó no ventre da própria mãe

Porquê? Porque ter como inimigo
Um indefeso, inocente por perigo
Fruto só de amor e afeição?

Ainda que eu pudesse calar
Esta voz sempre no vento a bradar
Não se calava nunca o vento, não!

Nita Ferreira

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