domingo, 24 de maio de 2009

Sonetos em T

Taça de prata

Se guardássemos nossos sentimentos
Numa taça de prata da mais pura
Assim muito juntinho aos momentos
Que vivemos de tão doce ternura

Eles seriam o nosso farol
Para não embater na rocha dura
Nos guiando p'las cores do arrebol
Confiantes de que o amor perdura

E ainda que o mar se revoltasse
O horizonte cinza se tornasse
Na taça buscaríamos conforto

Dela fluindo verdade e magia
Seríamos poema na alegria
Tranquila de um bem seguro porto

Nita Ferreira









Teu nome abençoado é Mulher

Tuas faces são de rosa coloridas
Sedosos e macios teus cabelos
Teu colo trancelim de margaridas
Teus seios montes tão róseos e belos

Tua boca poema de ouro e laços
Teus olhos silabados de lampejos
Largo beiral de afagos os teus braços
Ancoradouro de angústia e desejos

Esperança, promessa e saciedade
Nascente, vida, leito sem idade
Deus sempre te sorri, haja o que houver

És labareda acesa sobre a água
Lança que vence toda a dor e mágoa
Teu nome abençoado é Mulher

Nita Ferreira










Tenra insensatez

Ainda respirando as orvalhadas
A folha olha as nervuras murchando
Num silêncio de folhas desfolhadas
Vai se o verde viçoso apagando

Verde olhar que em sonhos de verdura
Festejou esperança e ternura
Vai agora chorando as cores roubadas
Já pálidas, mortiças, apagadas

Triste é ver o verde a desfalecer
E consigo a Primavera a morrer
Ignorando que raiará o Verão

Tenra folha, feliz insensatez
Sem pensar que virá em sua vez
Belo fruto de uma flor em botão

Nita Ferreira










Tela outonal

Já na tela a divinal pintura
Em tintas de ouro e paz outonal
Se mesclava em mestria e ternura
Num êxtase e enlevo sem igual

Foi nesse Outono de horas perdidas
Entre mágicas cores no amor achadas
Que subimos ao cume das ermidas
Onde as almas se perdem encontradas

Onde as lágrimas secam o seu choro
Serafins, querubins fizeram coro
E num quase imperceptível soprar

Enviaram o Outono de mansinho
Para as lages do nosso caminho
Com folhas só de amor atapetar

Nita Ferreira











Tsunami na Ásia


Manhã de vinte e seis, Dezembro, há um ano
A natureza reagiu, rugiu das profundezas
Deixando medo, horror e dor no peito humano
Violenta espalhou morte, angústias, incertezas

Revoltou – se o mar, cavernosa e gigante onda
Ceifou humanas vidas, tantos milhares ao passar
Não há no mundo vivalma que dor tamanha esconda
Ver meninos inocentes seus entes perdidos chorar

P’la dor desses rostinhos … por tanta vida perdida
Num negro manto de água tragicamente colhida
Pelo infindo pesar e luto é imperioso mudar

Nesta época festiva que o homem chama Natal
Em memória de a quantos aquele dia foi fatal
Cuidemos do nosso planeta para a VIDA salvar

Nita Ferreira










Trago comigo

Trago comigo rios sob pontes
E um caudal de sonho apressado
Como a frescura viva que das fontes
Brota e sacia o sonho acalentado

Trago comigo abertos horizontes
De nuvens brancas e de sol doirado
Trago comigo a verdura dos montes
E o peito verde de amor semeado

Trago comigo sol de outros Verões
E a vontade toda das estações
De ofertar frutos belos e sãos

Mas dos meus olhos fica já distante
O sonho esmorecido e sem garante
Que não sei aquecer nas minhas mãos

Nita Ferreira










Tudo nada

Ao desbravar a luz eu antevi
No verde do bosque uma mancha escura
Mas branquear os trilhos persisti
Beber das águas claras a frescura

Eis quando a meio curso ondas de lodo
Investiram em meus ramos de árvore
Meu aroma de flor beberam todo
Restando apenas meu peito de mármore

E por dentro de mim os corredores
Plenos de sol e verde verteram cores
Fértil paisagem não aproveitada

As pérolas lustrosas eram ocas
No tudo e tanto as verdades poucas
Como o tesouro imenso um mar de nada

Nita Ferreira

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