domingo, 24 de maio de 2009

Sonetos em S

Soneto a Abril

Mês de Abril abre as janelas do céu
Diz o povo que ele vem de águas mil
E este Portugal que é meu e teu
Se abre mais um pouco ao céu anil

Abril, Primavera verde e florida
Foste poema e esperança desigual
E nos cravos vermelhos, cor garrida
Deixaste que sonhasse Portugal

Abril d’hoje e da minha adolescência
Abril de que bebi toda a essência
Abril, voo de sonho em liberdade

Abril que foi mas que não sei se é
Licor saciador ou água-pé
Encanto, desencanto ou saudade

Nita Ferreira









Só a ti

Como é bom dar amor e receber
Reviver os beijos que me entregaste
Recheados de paixão e de prazer
Que no meu corpo branco colocaste

Senti hoje o meu corpo estremecer
Qual primeira vez tuas mãos em mim
Foi a espontaneidade de um querer
Que sem querer aumentou em frenesim

Só por ti, a ti e a mais ninguém
Qual criança sai do colo da mãe
E começa pela vida a caminhar

Fez-se forte e imenso este amor
No meu peito eu guardarei tal valor
Que a ti, só a ti quis entregar

Nita Ferreira










Sinto saudade

Sinto saudade de nós e da distância
da mão na mão, dos sonhos partilhados
dos risos sãos e felizes da infância
e dos caminhos a dois palmilhados

E saudade dos ventos cristalinos
tocando nossos corpos ensolarados
dançando em meus cabelos bailarinos
roubando teus beijos neles guardados

Ó saudade, és gruta tão escura
por onde ecoa ausência e amargura
e sonhos verdes em dor desfalecidos

Saudade vai às noites estreladas
roubar a luz das estrelas douradas
e reacender meus sonhos falecidos

Nita Ferreira









Sonho invulgar

Um sonho eu sonhei e era invulgar
De bela cor e singular padrão
Sonho que enfeitiçou o meu olhar
Num forte e ofuscante clarão

Sem rédea esse sonho galopante
Montei e galguei luas encantadas
Milenares cometas e o sol distante
P'las estrelas em mim aprisionadas

Mas mais além do vale de encantar
O precipício escuro a espreitar
Traz dor e vertigens contraditórias

'Inda assim guardo o sonho nos meus braços
Que me canta, aconchega e abre espaços
Com cores de sorrisos e vitórias

Nita Ferreira









Soneto do Amigo

A amizade é em ti a flor da vida
Na sua mais autêntica expressão
E de ti corre com a força viva
De um rio que preenche o coração

A amizade, no teu peito missiva
É abraço, ternura, doação
Poema que a nossa alma cativa
Verdadeiro sentimento de eleição

E se uma lágrima um dia te vi
Teu rosto amigo logo me sorri
E me vela com luz e intensidade

Por ti ergo a Deus um pensamento
E um pedido que relanço no vento
Que Ele te dê muita e plena felicidade

Nita Ferreira










Soneto da Vontade

Caminhos de mim a totalidade
Palmilhei entre o vale e a montanha
Em passos largos feitos de verdade
Persistência e vontade tamanha

Que esta é no meu peito facho aceso
E me veste a alma de integridade
Este querer em mim tão forte e coeso
É estandarte que levanto à claridade

P'los meandros da vida em muitas cores
Branco, verde, cinzento ou negro em dores
Curo feridas, redobro a intensidade

Não desisto e sou fénix tenaz
Vou em frente, confio e sou capaz
Porque não me abandona esta vontade

Nita Ferreira









Soneto da saudade

A saudade é lonjura sem afagos
É caudal numa lágrima pendente
Nascente crescendo que morre em lagos
De um olhar pelo outro olhar ausente

Saudade é um ermo aberto em nós
Que alastra e devora, impetuosa
É um vento pelas ruínas, uma voz
Que ruge e ensurdece, dolorosa

Saudade é um rumor, um azedume
De fel, de infortúnio e queixume
Um árido deserto, uma espera

Mas, ó doce ventura a fluir
É a doce lembrança a sorrir
Misteriosa taça de outra era

Nita Ferreira









Soneto a Janeiro

De entre os doze ele é o primeiro
Dono de um luxuriante luar
Com seu fulgor e brilho por inteiro
E seu dom de os amantes encantar

Janeiro, com que o ano principia
Traz um sol morno e envergonhado
No rigor do frio e da invernia
Aqueço-me em teu peito apaixonado

Sem ele todas as horas são iguais
E a estéril terra do nunca mais
É a minha morada o ano inteiro

Gela e entristece o meu coração
Sem encanto e sem feliz condição
Cresce em mim um invernoso Janeiro

Nita Ferreira









Soneto a Fevereiro

O ano caminhando e é já Fevereiro
Do céu cinzento gotas cristalinas
E um vento agreste, frio e desordeiro
Varre a calma das horas peregrinas

Mascarado de alegre feiticeiro
No Carnaval dos anos a passar
Filho que mata a mãe ao soalheiro
Assim na meninice ouvi contar

Mas deve ser mentira ou balela
Pois que debaixo da minha janela
Vi passar o santinho Valentim

Trazia sorrisos, flores e abraços
Tudo numa caixa embrulhada em laços
E um bilhetinho de amor p'ra mim

Nita Ferreira









Suculento amor

Só o som suculento e a textura
Das palavras de amor com que me beijas
Me tocam e atravessam na doçura
Dos lábios teus em mim, rubras cerejas

Só o marulhar meigo me seduz
E o mar de amor e fogo me incendeia
Nesse ritual de volúpia e luz
Que me inebria a alma e incandeia

Só o tecido branco do teu ser
Anjo ternura e mel a escorrer
Em mim me faz rio, mar e vulcão

Quero morrer em ti e renascer
Para no amor só de amor me perder
E ao amor me render sem condição

Nita Ferreira









Sorte ou sina

Eu não sei dizer-te se foi má sorte
Se foi boa por ter perdido o norte
Que me levava sem ter direcção
Até às cinzas da desilusão

Creio não foi a sorte mas a sina
Que me quis risonha e feliz menina
Pintando arco-íris da terra aos céus
Sina minha escrita p'la mão de Deus

Sua benção paternal, protectora
Num manto divinal a toda a hora
Sobre o meu ser inteiro estendeu

E ao meu peito segredou baixinho
Que essa não era a rota, o caminho
Que Ele um dia para mim escolheu

Nita Ferreira










Sonho pequenino

No mundo actual desengraçado
Que sem graça provoca tanta dor
A criança, ser que é abençoado
Sofre e é vítima de desamor

Nas leis e nos direitos decretados
Há chavões que nos entram pelos olhos
E os meninos persistem maltratados
Injustiças vão ocorrendo aos molhos

São violações e mil atrocidades
Fome, miséria, exploração, maldades
Rude egoísmo e tão parca esperança

Onde tão só um sonho pequenino
Seria obreiro de um outro destino
O mundo só nas tuas mãos, criança

Nita Ferreira










Serei?

Serei o tempo, a alfaia, o jeito
Da alma desbravada que é arado?
Serei a terra dormindo em seu leito
Humus revolto em campo germinado?

Nativa que sou do luar de Agosto
Semear e cultivar é minha meta
Aguerrida e de suor no rosto
Assim Deus me fadou em estrada recta

E quantas vezes na larga da planície
Não reconheço a verdadeira espécie
E me dissipo entre a floresta

Mas se tudo é criação de Deus
Em oração eu agradeço aos céus
Que entre as sementes sou a mais modesta

Nita Fereira

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